VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E SALMOS IMPRECATÓRIOS

A cultura babilônica acreditava que a mulher era feita de uma substância inferior a do homem. Então vem o autor de Gênesis e afirma que a mulher foi feita a partir de uma das costelas de Adão. Uau! Que marretada na cultura! O texto inspirado dos hebreus afirmando que homem e mulher são iguais em essência.

Em tempos onde o testemunho da mulher não era aceito, Deus, em sua providência, garante que mulheres fossem as primeiras a testemunharem da ressurreição de Jesus (Mt 28.1-10). Quando as leis civis sobre violência são instruídas, mulheres sempre são lembradas (Ex 21.15, 17, 20, 22-25, 26). Paulo ensina que os maridos devem amar sua esposa “como Cristo amou a igreja e se entregou por ela” (Ef 5.25).

Na mesma Bíblia que encontramos princípios legais, como os prescritos acima, também observamos alguns textos que inicialmente nos geram desconforto. Salmos como 137 que diz: “Lembra-te, Senhor, dos edomitas e do que fizeram quando Jerusalém foi destruída, pois gritavam: “Arrasem-na! Arrasem-na até aos alicerces! ” Ó cidade de Babilônia, destinada à destruição, feliz aquele que lhe retribuir o mal que você nos fez! Feliz aquele que pegar os seus filhos e os despedaçar contra a rocha!” (Sl 137:7-9).

Por conta da influência do liberalismo teológico, tendemos a ignorar esses salmos, entendendo que tais estão ligados à compressão de Deus da época. Por mais que exista o aspecto de revelação progressiva nesses salmos, acredito que eles podem nos ensinar sobre como orar diante de injustiças claras.

Usando de exemplo o Salmo 137, observamos que o salmista está diante de uma injustiça clara. Os edomitas, povo meio-irmão de Israel, haviam os traído e se aliado aos babilônicos. Sendo assim, eles capturaram todos os que tentavam fugir do cerco e os entregavam aos babilônicos para serem empalados (pesquise como era a empalação). Imagine você ver ou saber que seus amigos, familiares, irmãos estão sendo mortos de forma lenta e dolorosa. Essa é parte da realidade que o salmista viveu.

Diante de tamanha injustiça, como poderia ser a oração do autor? Observe que ele não busca justiça própria, mas do Senhor. Recentemente vimos nas redes sociais o caso de uma jovem que sofria abuso há oito anos (se não me engano). Sabendo que Deus estabeleceu que as autoridades portassem a espada para punir o mal e louvar o bom (Rm 13.1-7), qual oração faremos diante de injustiças do tipo?

Como vimos nos primeiros dois parágrafos homens e mulheres são iguais em essência, por isso, na fé cristã, não toleramos nenhum tipo de subjugação. Agredir, abusar, maltratar alguém é desfigurar a imagem de Deus presente na humanidade. Ferir aquele que é imagem de Deus é ferir a Deus.

Por isso, sempre que ouço casos de violência doméstica ou outras injustiças claras, rogo para que o Senhor faça justiça aos afetados. Oro para que o juízo venha sobre os ofensores. Você pode estar se perguntando: onde fica a misericórdia? O profeta Jeremias, mesmo com o povo em situação de juízo no cativeiro reconhece que “suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se a cada manhã” (Lm 3.22-23). A misericórdia, amor e outros atributos não contradizem a justiça.

Nesse sentido, temos o papel de ajudar os próximos que sofrem injustiças. Também oramos para que Deus restaure os afetados; venha o juízo sobre os agressores; e tenha misericórdia dos mesmos. Em um país de instituições falidas, injustiça e abusos, talvez a igreja precisem praticar as orações imprecatórias crendo que Deus trará justiça.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos (Mt 5.6). Oremos pela jovem e por todos e todas que sofrem do mesmo.

Lucas Ramos Pereira

Lucas Ramos Pereira é Bacharel em Teologia pela FBMG. Atualmente é pastor da Primeira Igreja Batista em Vila Pilho, Belo Horizonte/MG. Também atuou como Coordenador de Missões da JUBAM (Juventude Batista Mineira).

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