A SOBERANIA DE DEUS E A EVANGELIZAÇÃO

Uma indagação à fé reformada calvinista é: Se Deus é quem escolhe para a salvação, por que temos que evangelizar? Esta é uma boa pergunta. De fato, há muitos que se dizem calvinistas que não encontram razões para testemunhar de Cristo. Eles entendem que de uma forma ou de outra os eleitos virão à fé.

Não é este sentimento que a fé reformada traz. Ao contrário, ela incendeia o fervor evangelístico! Vejamos na história da reforma. Lutero traduziu a bíblia para o alemão a fim de que o povo tivesse acesso à Palavra. Isto é o cumprimento da missão. Podemos citar ainda a vida de Calvino que enviou mais missionários que muitas organizações modernas. Muitos iam até Genebra para aprender com Calvino e retornavam para suas cidades para pregar o Evangelho. Outros saiam para lugares distantes para anunciar o Reino de Deus. Pela recomendação do próprio Calvino, muitos vieram ao Brasil em meados do século XVI.

Poderíamos ainda citar William Carey, Batista calvinista, reconhecido como pai das missões modernas. Carey lutou contra a crescente oposição daqueles que não evangelizavam por acreditarem que Deus levaria qualquer eleito à Fé sem precisar de qualquer meio humano. Muitos da época de Carey acreditavam que a Grande Comissão se referia apenas aos apóstolos. Em oposição a este pensamento, este calvinista escreveu “uma investigação sobre o dever dos cristãos de empregarem meios para a conversão dos pagãos” (1792) e deu sua vida para a evangelização do povo indiano.

Poderíamos ainda citar George Whitefield, Charles Spurgeon e Jonathan Edwards. A história revela que os calvinistas testemunham de Cristo. E o seu fervor e tão grande quanto qualquer outro. Este fervor advém da consciência que se toma que somos o meio de Deus para levar os eleitos a Fé e ao pleno conhecimento de Deus como diz o apóstolo Paulo:

Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para conduzir os eleitos de Deus à fé e ao pleno conhecimento da verdade, que leva a piedade, na esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos eternos e no tempo próprio manifestou a sua palavra, mediante a pregação que me foi confiada segundo a ordem de Deus, nosso salvador. Tito 1.1-3

Wayne Grudem[1] traz um bom exemplo que elucida entre outras perspectivas como o Novo Testamento apresenta o ensino da eleição: “é como se alguém nos convidasse para uma pescaria e dissesse: Eu garanto que vocês pegarão alguns peixes – eles estão famintos e aguardando”. Devemos saber que Deus escolheu algumas pessoas e elas estão por aí. Quando pregamos temos a oportunidade de “puxar a rede com os peixes”!

Sabemos que é o Espírito Santo quem convence o homem do “pecado, da justiça e do juízo de Deus” (João 16.8). Mas ele faz isto por meio da proclamação do Evangelho:

Portanto, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela Palavra de Cristo. Romanos 10.17

Em um excelente artigo sobre o assunto, Ernest Reisinger[2] nos explica que Deus providenciou tanto os meios quanto a causa da Grande Comissão. Para que os eleitos venham a fé (consequência) e conheçam o amor eletivo do Pai (causa), a pregação e a oração deve ocorrer com diligência (meios). Por isso Jesus revela um relacionamento especial com suas ovelhas as quais ele ama ao ponto de dar sua vida por elas (João 10.11). Estas ovelhas reconhecem seu pastor ao ouvir sua voz (João 10.26-27). E a voz do Senhor é manifesta pela pregação da Palavra de Deus:

Pois Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não levando em conta as transgressões dos homens; e nos encarregou da mensagem da reconciliação. Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus vos exortasse por nosso intermédio. Assim, suplicamos-vos por Cristo que vos reconcilieis com Deus. 2 Coríntios 5.19-20

Perceba que o fervor missionário vem da convicção de que o plano de salvação será bem-sucedido. Deus, o Pai, planejou a salvação; Deus, o Filho, realizou a salvação por meio da sua morte e ressurreição; Deus, o Espírito Santo, aplica e manifesta a salvação. Por isso, o apóstolo Paulo justifica seu comissionamento pela igreja em Roma:

Porque: todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados? Assim como está escrito: Como são belos os pés dos que anunciam coisas boas! Romanos 10.13-16

Quando o missionário anuncia as Boas Novas, ele alcança o coração daqueles que Deus escolheu e estes são trazidos para o rebanho do Supremo Pastor. Porém, a proclamação do Evangelho também condena aquele que despreza a salvação. De uma forma absoluta, a Grande Comissão cumpre, então, o papel de dar glória a Deus e “anunciar entre as nações a Sua glória” (Salmo 96).

Foi para anunciar a Glória de Deus que fomos chamados:

Mas vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz. 1 Pedro 2.9

A verdade da Soberania de Deus e a Evangelização nos trazem alguns benefícios, então:

  • Não somos chamados para salvar ninguém! Somos chamados para anunciar a Glória de Deus revelada na obra de Cristo Jesus. O mandamento de Jesus não diz: Ide e salvai! O Mandamento de Jesus diz: Ide e Pregai – anunciai; proclamai; manifestai (Mateus 28.19,20). Ele é quem salva!
  • Nosso sucesso não será medido pela quantidade de pessoas que levamos a Cristo! Mas seremos bem-sucedidos se formos fieis à Mensagem do Evangelho (1 Coríntios 4.2).
  • Somos privilegiados por participar da missão de Deus no mundo. Por isso vale a pena nos dedicarmos e oferecermos nossa vida em prol da Grande Comissão (2 Timóteo 2.10).
  • A pregação do Evangelho se torna mais prazerosa e poderosa. Pois não anunciamos por obrigação ou por um senso de responsabilidade. Anunciamos a Glória do Cristo exaltado sobre todo nome. E humildemente reconhecemos que não temos méritos no convencimento de alguém e nem fomos insuficientes caso alguém rejeite o Evangelho.

Vamos concluir com uma brilhante ilustração usada por R.B. Kuiper[3]:

“Uma velha ilustração torna bem claro o uso que não deve ser feito da doutrina da eleição ao lidarmos com pessoas não salvas. Pode-se falar da casa da salvação. Seu alicerce é o decreto divino da eleição, e sua entrada é Cristo. Ele disse: “Eu sou a porta” (João 10:9). Quando os que pela graça de Deus se acham dentro convidam os de fora a entrar, indicam para eles o alicerce ou a porta? A resposta é mais que evidente. Assim, quando o carcereiro de Filipos perguntou a Paulo e Silas o que devia fazer para salvar-se, eles não o aconselharam a que procurasse descobrir se estava na lista dos eleitos; mandaram-no crer no Senhor Jesus Cristo (Atos 16:31)”.

 

#BemVindoAoEvangelho

Autor: Rafael Moraes Bezerra é formado em Direito pela UFJF; mestre no programa Master of Divinity pela EPPIBA (Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia) em parceria com a TLI (Training Leaders International); Pastor auxiliar da Primeira Igreja Batista em Ubá/MG

[1] Grudem, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999.

[2] Disponível em <http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/137/O_que_pensamos_sobre_Calvinismo_e_Evangelismo>.

[3] Disponível em < http://www.monergismo.com/textos/evangelismo/evangelizacao_eleicao.htm>

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