O PADRÃO DE LIBERDADE

Introdução

Atualmente as redes sociais estão em alta e nelas todos tem voz. Por isso, tem se tornado comum se deparar com diversos tipos de posicionamentos, sobre diversos assuntos. Um dos assuntos em voga é a liberdade cristã. Esse texto visa apresentar esclarecimentos sobre a questão. Até aonde vai a liberdade do cristão? O que é legalismo? O que é libertinagem? Existe algum ponto de equilíbrio?

 

  1. Legalismo

O legalismo cristão (se é que pode ser chamado de cristão) é marcado pela tentativa de buscar a salvação por meio da obediência de lei. O legalista crê que a salvação está em suas mãos, basta a ele abraça-la ou não por meio da fé e santidade. Ele pensa que ao cometer determinados pecados, perde a salvação. Outra marca do legalismo é achar que o perdão dos seus pecados está condicionado a confissão dos tais a Deus.

Certa vez conversando com um senhor, cuja interpretação escatológica é dispensacionalista[i], ele afirmou: “Você pode ter servido Jesus a vida toda mas se ele voltar e você estiver adulterando, com certeza você ficará. O motivo é simples, você perdeu sua salvação no momento do pecado. Por isso a Bíblia nos chama a vigiar”. Essa afirmação exemplifica uma mente legalista.

O problema do Legalismo é que ele ofusca o que existe de mais belo no evangelho. A justificação pela fé, junto com a doutrina da Trindade[ii], é a base da fé cristã. Justificação é o ato de Deus declarar alguém justo. Porém, como pode um Deus santo declarar pecadores justos? A resposta é: por meio das obras e méritos de Jesus.

Toda humanidade transgrediu a lei. Isso fez com que todos estivessem condenados (Rm 3. 9-20). Não havia salvação alguma para o ser humano. Porém, quando a fé é concedida a alguém, toda a vida de Jesus é imputada a sua vida. É como se Deus olhasse para o pecador e não vesse seus feitos, mas os de Cristo. Deus passa a levar em consideração não os méritos do homem (que tem a fé), mas os de Jesus de Nazaré. Por isso a salvação é pela graça mediante a fé (Ef 2.8-9). Essa é a única forma do pecador ser justificado.

Visto isso, percebe-se que a salvação não vem pela obediência da lei. Como Paulo afirma: “Pois sustentamos que o homem é justificado pela fé, independente da obediência à lei” (Rm 3.28). A salvação segundo o legalismo, por consequência lógica, tem mérito do pecador. Porém o Apostolo Paulo nos adverte que não existe glória humana nesse processo: “Onde está, então, o motivo de vanglória? É excluído. Baseado em que princípio? No da obediência à lei? Não, mas no princípio da fé” (Rm 3. 27).

Por isso, não se prenda a uma fé legalista. Esse foi o erro dos grupos religiosos dos tempos de Jesus. Eles buscavam a salvação pelos próprios méritos. Lembre-se! Lendo os evangelhos, você nunca observará Jesus tendo problema com pecadores, porém você constatará, o tempo todo, o Mestre tendo problema com os religiosos. Espero que Jesus não tenha problemas com você no dia final.

 

  1. Libertinagem

Por outro lado, existem os libertinos. A libertinagem busca usar a graça de Deus para validar uma vida desacerbada no pecado. O pensamento deste é: “Se somos salvos pela graça, não precisamos abandonar nossos pecados”. Esse grupo usa discursos como “o amor vence” e odeia sermões sobre santidade.

Certa vez, estava fazendo uma exposição da carta de Judas. No meio da exposição, uma pessoa saiu do salão. Em uma conversa posterior com ela, descobri que o motivo de sua saída era a mensagem. Ele afirmou: “hoje não devemos mais pregar sobre santidade, devemos pregar somente o amor”. Não creio que esse irmão seja um libertino, mas esse fato expressa bem como se dá o pensamento desse grupo.

Judas enfrentou esse problema no seu tempo:

Pois certos homens, cuja condenação já estava sentenciada há muito tempo, infiltraram-se dissimuladamente no meio de vocês. Estes são ímpios, e transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo, nosso único Soberano e Senhor. (Jd 4)

A comunidade que Judas, irmão de Jesus, escreveu estava enfrentando problemas com os libertinos. Por isso, ele inicia sua carta convidando os irmãos a batalharem pela fé que lhes foi confiada (Jd 3). Para combater a prática de libertinagem, o autor usou três exemplos: os que foram destruídos, após a saída do povo de Deus do Egito, pelo fato de não crerem (Jd 5); os anjos caídos que estão aguardando o juízo (Jd 6); As cidades de Sodoma e Gomorra que estão “sob o castigo do fogo eterno” (Jd 7). Ainda se referindo às cidades, no verso 7, ele diz: “elas servem de exemplo”.

O irmão de Jesus está alertando que da mesma forma que estes três grupos pereceram, os libertinos e aqueles que negam Jesus também perecerão. A libertinagem não é um fruto daqueles que receberam a fé. Não caia na libertinagem, pois seu destino será trágico.

E então? Vamos pecar porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De maneira nenhuma! (Rm 6.15)

 

  1. Liberdade

A liberdade, segundo o evangelho, é o entendimento que em Cristo o pecador não depende da obediência da lei para ser salvo. Quem partilha dessa liberdade, entende que a lei o conduziu a cruz de Cristo. Pois, é ela que proporciona a consciência de pecado e revela a situação caída da humanidade e sua incapacidade de salvação própria (Gl 3.24).

Quando o pecador chega à cruz, ele volta a lei. Porém, ele não volta aos mandamentos para ser salvo, mas porque foi salvo. O pecador, salvo que experimenta da liberdade não anula a lei. Como o Apóstolo Paulo escreve: “Anulamos então a lei pela fé? De maneira nenhuma! Pelo contrário, confirmamos a lei” (Rm 3.31).

A liberdade em Cristo implica em não carregar o peso da lei.  O indivíduo peca, reconhece que errou, confessa seu pecado a Deus, mas sabe que seu pecado não o afasta do Pai, que já o redimiu.

A liberdade pertence aqueles que buscam viver como Jesus de Nazaré. Experimentam dela aqueles que entenderam que o fardo da lei é muito pesado para ser carregado. Vivem em liberdade aqueles que carregam o fardo de Jesus, que é leve:

Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve. (Mt 11.29-30)

 

É nesse sentimento que você deve caminhar. Não anule os mandamentos. Não cumpra a lei para ser salvo. Busque obedecer porque você foi salvo. A salvação recebida o convida à busca de santidade.

Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; pelo contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor. (Gl 5.13)

Exerça sua liberdade servindo seu próximo em amor.

 

Conclusão

Tanto o legalismo quanto a libertinagem são problemas presentes em nosso tempo. Percebem-se igrejas que escravizam seus membros, colocando sobre eles o peso da lei e uma série de regras não bíblicas. Por outro lado, visualiza-se uma crescente da libertinagem. Movimentos como a Teologia Inclusiva expressam o momento que vivemos.

O chamado desse texto é para que todos os cristãos possam experimentar da verdadeira liberdade em Cristo. Além disso, a motivação da escrita desse texto é mesma motivação de Judas: “…Senti que era necessário escrever-lhes insistindo que batalhassem pela fé uma vez por todas confiada aos santos. ” (Jd 3).

 


[i] Nesse texto, considere dispensacionalismo o pensamento pré-milenista pré-tribulacionista. Essa corrente entende que haverá uma vinda secreta de Jesus. Nessa vinda os fiéis serão arrebatados (desaparecerão) e se iniciará os sete anos de tribulação. Após esse tempo Jesus voltará e reinará durante mil anos literais aqui na terra. Por fim, Jesus vencerá seus inimigos e se iniciará o estado eterno. O autor desse artigo repudia essa vertente.

[ii] Entenda a doutrina da Trindade:http://bemvindoaoevangelho.com.br/2016/11/25/o-evangeliques-brasileiro-precisa-conhecer-niceia/

 

Sobre o autor: Lucas Ramos Pereira é Bacharel em Teologia pela FBMG e pós-graduando em Teologia e Interpretação Bíblica pela FABAPAR. Atualmente atua como Coordenador de Missões da JUBAM (Juventude Batista Mineira). Também é pastor da Primeira Igreja Batista em Vila Pilho, Belo Horizonte/MG.

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