O AGLOMERADO DE CÉLULAS E O CRISTÃO

O cristão deve ser contra ou a favor do aborto? Não é esse o assunto discutido nesse texto. O tema tratado é mais específico. Até porque, é pressuposto dessa reflexão que o assunto é muito amplo. O objetivo é responder a seguinte pergunta: A partir da visão bíblica, o cristão deve sair afirmando que o feto é um “aglomerado de células” sem vida? Isso seria sábio? Esse texto  não é científico, nem político, nem oriundo das ciências sociais, ele expressa a concepção bíblica sobre a vida do bebê no ventre. Alguns textos bíblicos apresentam alguns indícios sobre a questão.

 

  1. A lei dos hebreus

“Se homens brigarem e ferirem uma mulher grávida, e ela der à luz prematuramente, não havendo, porém, nenhum dano sério, o ofensor pagará a indenização que o marido daquela mulher exigir, conforme a determinação dos juízes.
Mas, se houver danos graves, a pena será vida por vida,
olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,
queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão.”
Êxodo 21:22-25

Esse texto encontra-se no momento em que as leis referentes a violência estavam estabelecendo-se. Nesse fragmento encontra-se o famoso “olho por olho e dente por dente”, que para época, era um método de punição avançado. Nessa lei, percebemos a preocupação com a mulher e o bebê que está no ventre. Ou seja, fica nítido que a mulher e o bebê ainda no ventre, eram considerados.

 

  1. A compreensão de Jó

Lembra-te de que me moldaste como o barro, e agora me farás voltar ao pó?
Acaso não me despejaste como leite e não me coalhaste como queijo?
Não me vestiste de pele e carne e não me juntaste com ossos e tendões?
Deste-me vida e foste bondoso para comigo, e na tua providência cuidaste do meu espírito.
Jó 10:9-12

Diante da desgraça, no desabafo para com Deus, de forma poética, percebemos a clara concepção de existência durante o seu período de formação.

 

  1. A percepção do salmista

Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe.
Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza.
Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra.
Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir.
Salmos 139:13-16

O Salmista reconhece que o Senhor o acompanhava desde sua formação. De forma poética, o autor reconhece que o Senhor criou o “íntimo de seu ser” ainda no ventre da sua mãe. Fica claro o reconhecimento da vida ainda no ventre.

 

  1. O encontro entre Maria e Isabel

Naqueles dias, Maria preparou-se e foi depressa para a uma cidade da região montanhosa da Judéia,
onde entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o bebê agitou-se em seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
Em alta voz exclamou: “Bendita é você entre as mulheres, e bendito é o filho que você dará à luz!
Mas por que sou tão agraciada, a ponto de me visitar a mãe do meu Senhor?
Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê que está em meu ventre agitou-se de alegria.
Feliz é aquela que creu que se cumprirá aquilo que o Senhor lhe disse! ”
Lucas 1:39-45

Esse é o encontro de Maria, que gestava Jesus, e Isabel, que carregava  João Batista em seu ventre. Quando Maria saúda Isabel, João Batista, que futuramente iria preparar o caminho para Jesus e dizer “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, se agitou no ventre da sua mãe. Pelas falas de Isabel, percebe-se que a agitação é consequência do encontro com o Messias. Isso demonstra a pessoalidade de João, o Batista, no ventre de Isabel.

 

  1. A totalidade do ser humano

Observe essa frase de Anthony Hoekema [1]:

Embora a Bíblia veja o homem como uma totalidade, ela também reconhece que o ser humano possui dois lados: o físico e o não-físico. Ele possui um corpo físico, mas ele também é uma personalidade. Ele tem uma mente com a qual ele pensa, mas também um cérebro que é parte do seu corpo, e sem o qual ele não pode pensar. Quando as coisas andam errada com ele, é necessária uma cirurgia, mas outras vezes ele pode precisar de um aconselhamento. O homem é uma pessoa que pode, contudo, ser vista de dois ângulos.

O autor, está considerando, em sua antropologia bíblica, que o ser humano é um todo e não está divido em partes. Isso significa que apesar de admitir que o homem tem seu aspecto material e imaterial, é necessário considerar a totalidade do ser humano. Gorge Eldon Ladd aponta oito termos que Paulo usa referindo-se ao homem (psyche, pneuma, soma, sarx, kardia, nous, “ho eso anthropos”, syneidesis) [2], o que mostra que não podemos dividir o ser humano em partes mas precisamos considerar sua totalidade.

A totalidade humana, nos leva a pensar sobre a seriedade do assunto proposto nesse texto. Se homem é um todo, será que o aspecto imaterial está presente no período de gestação? Por consequência lógica, podemos crer que, sim.

Como escreveu Franklin Ferreira: “Ao se tornar uma ‘alma viva’, o ser humano foi constituído um ser integral” [3]. Se o homem é um ser integral, ele o é, desde o início da sua gestação.

 

CONCLUSÃO

Vista a preocupação da lei com o bebê em gestação, o reconhecimento de vida ainda no ventre da mãe, a pessoalidade da criança apresentada no encontro de Maria e Isabel, e a totalidade humana, creio que o cristão deveria evitar o termo “aglomerado de células” para definir um feto. Assimilando essas verdades, entendemos que a Bíblia vê a gestação com seriedade. Como disse no inicio,  não estou discutindo o aborto. O ponto em questão são as manifestações, principalmente nas redes sociais, afirmando o “aglomerado de células”. Diante da seriedade do assunto, os seguidores do Nazareno deveriam aborda-lo com muito zelo.

Meu desejo é que não tratemos o assunto com displicência, mas que possamos propor uma solução para os problemas sociais a partir de uma cosmovisão cristã. Não podemos somente levantar o problema, precisamos de respostas para resolvê-lo. O evangelho nos convida a refletir sobre esses problemas a partir de uma cosmovisão cristã, a fim de que os tais sejam amenizados, e quem sabe, por graça especial divina, resolvidos.

#BemVindoAoEvangelho

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Referências Bibliográficas:

[1] HOEKEMA, Anthony.  A Pessoa Total, Tricotomia ou Dicotomia. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/antropologia_biblica/tricotomia_hoekema.htm>. Acesso em 3 de dezembro de 2016.

[2] LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Editora Hagnos, 2003. p.646-649

[3] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 405

 

Sobre o autor: Lucas Ramos Pereira é Bacharel em Teologia pela FBMG e pós-graduando em Teologia e Interpretação Bíblica pela FABAPAR. Atualmente atua como Coordenador de Missões da JUBAM (Juventude Batista Mineira). Também é pastor da Primeira Igreja Batista em Vila Pilho, Belo Horizonte/MG.

3 thoughts on “O AGLOMERADO DE CÉLULAS E O CRISTÃO

  1. Muito bom artigo. É de fato uma verdade,que nos como cristãos temos que ter muito zelo com determinados assuntos,em especial quando nos posicionarmos em assuntos polêmicos. E esse artigo nos da não só uma visão bíblica,mais também uma lição de sempre nos posicionarmos de acordo com ela. Se é que ela é para nos a unica regra de fé.

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