Prosperidade genuína e sofrimento à luz do Salmo 35.27

Há textos como Salmo 35.27 que afirmam que o Senhor tem “prazer na prosperidade do seu servo”. Antes de analisarmos o Salmo 35.27, deixe-me explicar toda a minha crítica ao chamado evangelho da prosperidade, eu não desejo ou oro para a pobreza de ninguém. Eu não desejo ou oro para que uma pessoa fique doente. Eu não desejo ou oro para que uma pessoa sofra perseguições. Ninguém, eu acho, deve ter como seu objetivo sofrer de pobreza, doença, calamidade ou perseguição. Isso não é o objetivo da vida de ninguém. Entretanto elas virão, e, diante da dor busco confortar as pessoas com a presença de Cristo no sofrimento, não com a garantia de que eles vão escapar nesta vida. Devemos estar dispostos, sempre,  à suportar o sofrimento, a doença ou a pobreza, em Cristo. Devemos estar prontos a abraçar com alegria quando Deus nos dá essa oportunidade de sofrer. Jesus deixa bem claro: devemos buscar o Reino de Deus em primeiro lugar, a santificação, a obra da santa vontade de Deus, a pureza, a glorificação do nome de Deus, e amar o nosso próximo como a nós mesmos. Esses são os grandes desafios da vida do cristão, que acabam consumindo os objetivos terrenos de vida.

Sermos ricos, saudáveis ou seguros, é uma questão secundária. Observando (Mateus 6.9-13) entendemos que é preciso orar pedindo o nosso pão de cada dia, isso é estar em rendição plena – apenas nosso pão de cada dia, não muito pão, isso é rendição – continuar orando para que o Nome de Deus seja santificado e o seu reino venha. E Deus pode querer santificar o seu nome através da pobreza, da doença, da perseguição e até ante a morte. Ele fez isso muitas vezes com o seu povo. Ele vai decidir isso. Nós não vamos fazer essa escolha por nós mesmos. Nosso trabalho é confiar nele. Em todas as suas providências e nos gloriarmos na esperança da glória de Deus, lançando sobre ele toda nossa ansiedade, porque ele tem cuidado de nós (1 Pedro 5:7).

Então, meu problema com o chamado evangelho da prosperidade que é ensinado em algumas comunidades cristãs é triplo. Vamos esclarecer:

  •  Momento Errado

A pregação que enfatiza a prosperidade terrena tende a trazer para esta vida uma maior expectativa de prosperidade, para esta vida, sendo que fomos destinados para a próxima vida. Os filhos de Deus são peregrinos (Hebreus 11.16). Isto significa claramente que na próxima vida, na era por vir, não haverá nenhuma doença, nem pobreza, nem perseguição, nenhuma calamidade, nenhum mal, nem desencorajamento de qualquer tipo. Em outras palavras, o evangelho da prosperidade, que é falso, inclui saúde, riqueza e prosperidade. A verdadeira mensagem é: Cristo está vindo, ou seja, não importa a idade, bens, ou saúde, mas, a fé que temos. Quando entendemos tudo isso, somos espiritualmente fortalecidos, aperfeiçoados e amadurecidos. Por graça vamos deixando de apreciar as coisas dessa terra.

Os pregadores da prosperidade tendem a trazer a promessa para o presente de uma forma que é fora de proporção com a forma como o Novo Testamento descreve a posição em apuros do cristão neste mundo caído. E não são apenas os pregadores da prosperidade que cometem este erro. Acredito que permeia a maior parte da igreja moderna, de tal maneira que nem posso imaginar. A maioria de nós – nós – amamos este mundo, e vivemos em uma situação não comprometida com a situação de guerra que o cristão precisa viver. Não estou querendo dizer que vamos ganhar o mundo inteiro com recursos destinados a missões e que resolveremos o problema da pobreza, mas repartindo (1 João 5.17). Como numa guerra em que nos importamos uns com os outros, esquecendo o nosso conforto.

Portanto, essa é a minha primeira crítica a pregação de prosperidade que atravessa a maior parte do Cristianismo, não apenas os pregadores da prosperidade. Preciso dizer que, eu não estou me elevando e dizendo que não mereço essa crítica. Todos nós precisamos de grande ajuda e libertação do amor deste mundo – é o que João adverte sobre em 1 João 2:15 “não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele”.

  •  Perspectiva errada

Meu segundo problema com a pregação da prosperidade é que existe uma falta de ensinamento claro, profundo, bíblico sobre a necessidade do sofrimento nesta vida, da bondade de Deus e seu controle sobre tudo. O controle de Deus e os benefícios que podem vir a partir dele decidem nossa vida. Deus decide, nós não. É uma nota que falta, parece-me, que o sofrimento é evitado, assim nos esquecemos da promessa de Deus que diz “através de muitas tribulações entraremos no reino.” Esse foi o discipulado em Atos 14:22. Assim Paulo ensinou as igrejas.

Não devemos tratar as tribulações com desdém, e como já disse nem desejá-las. Elas virão, é inevitável. O Novo Testamento está repleto de ensinamentos dizendo que nada pode nos separar do amor de Cristo, incluindo a tribulação, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada, nem mesmo a morte. ( Romanos 8:35 -36 ). Precisamos entender que uma vida cristã será acompanhada de sofrimento. São as promessas de perdão e aceitação junto de Deus, paz, alegria e esperança que valem a pena 10.000 (dez mil) vezes mais do que a prosperidade física, de saúde e segurança nesta vida. Isso me leva à terceira dificuldade com o ensino da prosperidade, finalmente, sobre o Salmo 35.

  • Conforto errado

Tudo que eu disse até agora, penso eu, tende a levar os pregadores da prosperidade para confortar as pessoas não com a presença de Cristo no sofrimento e seu resgate do sofrimento no mundo vindouro, mas sim para confortar as pessoas com a garantia de que eles vão sair do sofrimento nesta vida. Certa vez estava em uma Igreja na Flórida, o sermão foi bom. Quer dizer, fui ajudado por este sermão. Mas a primeira coisa que aconteceu antes do sermão foi que o pastor principal levantou-se e deu uma palavra no momento do ofertório. Confiantemente ele dizia que os estudantes não devem entrar em dívida, porque se não eles não poderão dar o dízimo, e, se eles não entregam o dízimo, eles não vão experimentar a bênção de Deus em suas vidas. E assim o que esse Pastor queria atingir desde principio no coração desses estudantes é, há uma estratégia de obtenção de bênçãos materiais em Deus, porém o desejo do coração daquele Pastor – me parece – era arrecadar o suficiente para pagar o edifício gigantesco em que a Igreja se reúne. E eu acho isso realmente perigoso.

Biblicamente creio que Deus muitas vezes abençoe regularmente pessoas que entregam não apenas seu dinheiro, e de maneira que nunca poderei imaginar, porque ele se deleita em doadores alegres, pois sabe que eles amam a Cristo, e Cristo ama corações generosos. Penso que, em vez de anexarmos uma bênção material ao ato do dízimo, nós precisamos cultivar um amor por Cristo – não em seus dons, mas em Cristo – entendendo que dando ou não o dízimo, recebendo o suficiente para vivermos ou não, teremos o Senhor. Isto é o que Paulo elogia nos macedônios que são incrivelmente exemplos preciosos do que eu quero ser. “Em um teste severo da aflição, a sua abundância de alegria e extrema pobreza deles transbordaram em uma riqueza de generosidade da sua parte” ( 2 Coríntios 8: 2 ). Esta é a alegria que devemos enfatizar: a alegria que brota da graça salvadora, a despeito da aflição, apesar da pobreza.

Como podemos ajudar as pessoas que sentem que Deus tem seus melhores interesses no coração? Ou, como  usar as palavras do Salmo 35.27? Como podemos ajudar as pessoas a acreditar e apreciar a verdade: “Grande é o Senhor, que se deleita no bem-estar [ou prosperidade] do seu servo”? A resposta é, esta é a minha resposta: caminharmos com as pessoas através de Romanos 8, memorizá-lo juntos, porque não há maior capítulo para provar que Deus é por nós – 100% para nós, não 99%, e não contra nós. Não há maior capítulo para mostrar que quando ele deu Cristo, foi por nós, não era para remover o sofrimento nesta vida, mas para assegurar-nos de alegria inabalável. Mesmo na mais severa dor, tristeza, frustração e decepção, cremos que, nada pode nos separar do amor de Deus em Cristo. Essa a genuína prosperidade.

Portanto, a minha resposta curta é: Vamos para Romanos 8 – talvez o maior capítulo da Bíblia – colocar alegria cristã gemendo em seu relacionamento doloroso e precioso neste dia, tempo. O sofrimento pode durar uma vida, mas, Romanos 8 nunca será alterado. É promessa de Deus! #BemVindoAoEvangelho

Sobre o autor:  ( @JohnPiper ) é fundador e professor de desiringGod.org e chanceler de Belém faculdade & Seminary. Por 33 anos, ele serviu como pastor da Igreja Batista Bethlehem, Minneapolis, Minnesota. Ele é autor de mais de 50 livros.

Texto traduzido e adaptado: Eduardo Fagundes Oliveira

Fonte: www.desiringgod.org

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